sábado, 12 de Dezembro de 2009

O corpo do meu pai encontrava-se ao mesmo nível do meu, sentados olhávamos-nos mutuamente. O vazio instalando desvaneceu-se pelo retorno de um olhar que figurava muitas vezes entre soldados da mesma pátria. Guerreiros são aqueles que decifram a alma do inimigo num instante em que os seus olhares se cruzam. Eu não era o inimigo, era antes demais o soldado ferido pela dor da perda.
Perder-te no tempo, vezes sem fim era como mutilar e costurar o meu peito. A dor era insuportável, porque tudo o que tinha até então eras tu.
- Luana tens que falar comigo, - disse o meu pai procurando de alguma maneira se encontrar nas minhas palavras.
- Pai, - disse dando voz outra vez ao silêncio.
- Eu não quero que vás embora breve. Eu quero e preciso que sejas meu pai e não uma pessoa que vejo de tempos em tempos. Eu quero que me ouças a tocar, porque sempre que toco uma música ela pauta a saudade. Por vezes dou por mim a tocar a mesma sinfonia, onde eu mentalmente guardo as nossas memórias mais vivas, a figura de um pai e de uma filha.
- Mas tu nunca me pediste...
- Estou-te a pedir agora pai, - disse segurando a sua mão.
- Para a semana vou ter um concerto e pai... quero que estejas lá, não para eu tocar a tua ausência mas sim para ouvires a música que dedico a ti.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

O meu pai quebrou a corrente feroz dos meus pensamentos. A sua voz serena penetrou na minha mente como um reflexo de luz capaz de dilacerar a percepção quase utópica da minha existência.
Podia ouvi-lo a soletrar o meu nome, mas a imagem da minha essência estava reflectida num espelho imaginário e eu olhava-me pela primeira vez. O meu corpo estava mergulhado numa lagoa a flutuar, as minhas faces rosadas davam vida a um corpo inútil, e a respiração era o instrumento que dava voz as batidas do meu peito. Encontrava-me entre dois limites, era como se estivesse a um passo do céu e a outro do inferno. Não podia correr, mas também não estava completamente submersa. Mentalmente lutava para que o meu corpo e a minha alma se fundisse num só pecado mortal.
- Eu quero e posso errar, - disse como quem respira pela primeira vez após um estado de coma profundo.

sábado, 5 de Dezembro de 2009

A minha voz desmoronou-se como um um castelo de areia que desaba perante a fúria mar. Os nossos corpos submissos não davam liberdade aos movimentos. Os nossos olhares confundiam-se no profundo abismo e a minha voz suplicava inconscientemente... podia sentir os meus ouvidos a sangrar.
- Luana... O que foi isto?
- Foi um apelo pai, acredita em mim - Disse sem ouvir a minha própria voz.
Devagar, saí da sala e dirigi-me ao meu quarto. A janela estava entreaberta, sentei-me num tapete, e observei o céu sobre o mar e aquilo era simplesmente nada. Apenas sombras a pairar sobre o meu olhar.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

- Luana!!! Luana!!!
A voz do meu pai soava furiosamente, e eu num movimento automático levantei-me e desci pela escadaria que reflectia o brilho dos diamantes. O meu pai encontrava-se sentado na mesa e fulminou-me com o olhar por uns breves segundos.
- Pronto pai, já estou aqui.
- Tens a noção que vais chegar tarde a escola?! - Disse o meu pai num tom menos autoritário.
- Eu não vou hoje a escola, não importa.
- Como?
- Desculpa, mas são raros os dias que estás em casa. Eu não vou desperdiça-los para ir a escola... - disse olhando para um vidro embaciado que me impedia de ver o mundo.
- Luana... Mas porquê isso agora? Sempre adoras-te a escola....
- Mas mais do que a escola pai.... Eu adoro-te a ti e tu jamais me poderás tirar isso! - Disse erguendo o meu corpo sobre a mesa e olhando pela primeira vez no interior das suas pupilas corrompidas pelo fogo.
Eu tinha acabado de acender o fósforo...

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Por alguns segundos contemplei o meu violino. Pendurado numa parede do meu quarto, parecia ganhar vida durante a noite. As notas preenchiam subtilmente o meu pequeno mundo e a melodia que formavam fazia-me adormecer todas as noites. Quer dizer, talvez eu já estivesse a dormir, não importa... A verdade é que, a música governava majestosamente as profundezas do meu inconsciente.
Serias tu Eduardo, capaz de competir com o meu violino pela a minha alma?
Em vez de uma bela melodia, irei ouvir a tua voz?
Bem... a noite o dirá. Eu, ficarei a espera...

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

O seu rosto era intemporal, os seus traços reflectiam lutas de dor e o seu olhar ... no interior dos seus olhos castanhos as chamas ardiam vistosamente. Os nossos olhares nunca se cruzaram... Eu tinha receio de ser alcançada por aquela bola de fogo, se olhasse directamente nos seus olhos. O eco da sua voz perpetuava-se na minha cabeça como uma força mística. A nossa relação baseava-se numa preocupação mútua e o amor... esse ficou escondido algures naquela casa grande e vazia, mas nunca deixou de existir.

- Luana vem tomar o pequeno-almoço, está a ficar tarde para ires para escola, - disse o meu pai agora mais tranquilo.

-Está bem pai, eu vou já ter contigo.

Por poucos dias, horas, minutos que fossem... nesses momentos o meu pai estaria só para mim.


quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

- Pai?! - perguntei emergindo definitivamente da sombra de um sonho.
- Luana... olha para o teu estado! Desde quando é que dormes com roupa do dia-a-dia?
- Pai... tem calma - disse calmamente.
- Eu ontem cheguei tarde a casa e como estava cansada acabei por adormecer assim.
- E o que tiveste a fazer num domingo?
- Fui a casa da Leonor. Tivemos a ensaiar para o concerto da semana que vem. Não basta apenas tocar um violino, é preciso que as notas dancem com as pessoas.
- Luana?! - Disse o meu pai ainda não muito convencido.
- Pai... tu sabes que eu só tenho dois amores na minha vida. Tu e o meu violino.
Sentia-me que nem uma criança gulosa a esconder o último chocolate do pai, depois de ter passado o dia a comer doces. Nem tudo era mentira, eu amava de facto o meu pai e o meu violino, e agora também o Eduardo. Como poderia dizer ao meu pai que estava apaixonada por um aparente criminoso, sendo ele um oficial da marinha?
O meu pai aproximou-se de mim, pegou na minha mão e deu-me um beijinho.
- Quando é que vais embora?
- Breve.
Eu virei o rosto procurando esconder o vazio que naquele instante preencheu o meu olhar. Ele nunca ficava muito tempo comigo e eu nunca lhe disse para ficar.